Eu transformo a educação com tecnologia

Carla Zinn

Com a experiência de quem liderou projetos de inovação educacional na Secretaria Municipal de Cachoeira do Sul (RS), a especialista faz uma análise sobre as condições necessárias para as redes públicas de ensino transformarem as práticas pedagógicas 

 

Até o final de 2020, você foi diretora pedagógica da Secretaria Municipal de Educação de Cachoeira do Sul (RS) e, entre outros projetos, liderou etapas importantes da Iniciativa BNDES Educação Conectada. Como foi participar dessa experiência, que busca implementar tecnologias digitais nas escolas para melhorar os indicadores de aprendizagem e reduzir os índices de reprovação e abandono estudantil?

Foi uma experiência de muitos aprendizados e que proporcionou conquistas importantes para a rede municipal. Para falar um pouco do nosso contexto, a situação antes da Iniciativa, cujas ações começaram em 2018, era a seguinte: tínhamos pouquíssimos computadores nas escolas e muitos estavam sem funcionamento. Os professores estavam há tempos sem programas específicos de formação continuada em tecnologia e, além da falta desse suporte, havia uma certa resistência da parte deles em usar os aparatos tecnológicos disponíveis. Em 2017, começamos um projeto para resgatar o antigo núcleo de tecnologia municipal da secretaria e, por meio de uma parceria com a Universidade Aberta do Brasil (UAB), retomamos alguns encontros de formação continuada para desenvolver competências digitais elementares, como a elaboração de apresentações em Power Point e outras ações de uso geral do computador. A Iniciativa BNDES mudou radicalmente esse cenário, pois nos deu a possibilidade real de inovar, de avançar em processos formativos mais qualificados e de conquistar novos recursos tecnológicos. Hoje, a secretaria municipal de educação conta com um Espaço Maker criado para a formação de professores.

 

Em termos práticos, o que mudou ou está em processo de transformação?

A Iniciativa nos auxiliou muito na reorganização da secretaria em relação aos processos de inserção das tecnologias digitais na prática pedagógica dos professores. Tivemos suporte técnico e pedagógico para, entre outras ações, inserir no currículo local a competência da cultura digital, conforme traz a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), e iniciar uma nova proposta de formação continuada de professores. Esse suporte foi fundamental porque os conhecimentos que tínhamos na secretaria – em relação ao uso de tecnologia na educação – eram muito básicos. Contudo, com a Iniciativa, tivemos a oportunidade de aprimorar os conhecimentos, reestruturar os nossos processos e, sobretudo, adquirir um novo olhar para o uso das tecnologias – desde o nível macro (o que a secretaria precisa para se organizar) até o lugar onde as políticas públicas se materializam e são ressignificadas: a escola. A última vez que as escolas receberam computadores foi em 2008, via Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), por meio do Proinfo (Programa Nacional de Tecnologia Educacional). Penso que avançamos muito, mas é preciso avançar ainda mais! Esperamos que as sementes que foram plantadas tenham a oportunidade de germinar e gerar frutos. Em 2019, o currículo local alinhado a BNCC foi construído coletivamente pelos professores. O GET (Grupo Especial de Trabalho), com o apoio do CIEB, construiu o Guia dos Gestores Escolares para a implementação do projeto e, em 2020, iniciamos o ano com uma semana pedagógica que contemplou a cultura digital, as metodologias ativas e os encontros formativos previstos no âmbito da iniciativa. Mas, no mês de março de 2020 fomos surpreendidos pela pandemia da Covid-19. Agora em 2021, teremos outras mudanças na gestão educacional. Por isso, é muito importante que as secretarias tenham uma equipe que pense continuamente sobre a inserção das tecnologias na educação, que compreenda qual é a infraestrutura necessária, tudo isso sem deixar de lado o processo formativo dos professores, que deve ser contínuo. Se não houver o entendimento da importância de uma política pública e o fortalecimento dos meios para colocá-la em ação, tudo o que é construído se perde.

 

Além dessas rupturas de gestão e de equipe, quais são os outros gargalos da inovação educacional brasileira?

Não basta investir em tecnologia e não proporcionar a capacitação dos professores. É preciso qualificar os processos formativos com base na realidade, nas experiências e na necessidade dos educadores. Nesse contexto da gestão educacional, tudo depende da visão, das concepções pedagógicas, da compreensão que se tem do cenário local e das políticas de gestão como um todo. As redes também precisam de conhecimento técnico para conseguir mensurar, por exemplo, a infraestrutura de conectividade necessária para que uma turma de 20 estudantes possa usar, simultaneamente, um mesmo recurso educacional digital. Se não tiver um técnico que compreenda tudo isso e sem uma visão pedagógica, as coisas não acontecem com os resultados esperados.

 

A oferta de ferramentas e metodologias criadas especialmente para apoiar os processos de inovação nas redes de ensino pode ajudar a superar essas barreiras?

Acredito que as ferramentas e as metodologias são essenciais, mas antes disso é preciso ter uma equipe que busque essa inovação, que esteja voltada para isso. Os municípios e estados que estão avançando nessa esfera são justamente aqueles que têm estrutura e uma equipe qualificada que busca inovar e captar essa gama de informações e recursos educacionais digitais. Portanto, o que as redes precisam é de uma equipe de inovação e tecnologia que pense em formação continuada, que busque os recursos disponíveis e que também consiga acompanhar o nível de competências digitais dos professores para a melhoria e o (re) planejamento dos processos formativos. Essa equipe também tem de olhar para o impacto do uso das tecnologias e metodologias ativas na promoção e no sucesso de aprendizagem. É necessário criar a política, acompanhar e avaliar o impacto. Se não tiver uma interlocução entre todos esses aspectos, as ações acabam sendo isoladas no contexto da escola. Penso que para avançar na educação com o uso de tecnologias na prática pedagógica, é preciso pensar e construir, coletivamente, uma política educacional que atenda as demandas existentes.

 

A mudança de cultura é fundamental nesse processo, certo?

Sim, sem dúvida. A rede precisa reconhecer a necessidade de incluir a cultura digital em sua proposta pedagógica, olhar para a inserção da tecnologia de outra maneira, observando os desafios e as possibilidades… é todo um processo. Os professores precisam de novas referências e de espaços para o compartilhamento de boas práticas e para o fortalecimento coletivo. Quando iniciamos as aulas remotas, no ano de 2020, nos deparamos com uma gama de docentes que ainda não usava o e-mail e o WhatsApp. Estamos em um processo de mudança de cultura e, hoje, entendo que é necessário repetir a Autoavaliação de Competências Digitais de Professores, do CIEB, nas escolas que participam da iniciativa, para visualizar essas mudanças. Acredito que às ações de formação de professores que a iniciativa proporcionou foram essenciais para que os professores se sentissem mais fortalecidos para atuar de forma remota. Muitos foram contagiados e buscaram novas estratégias para construir conhecimento sob uma nova perspectiva.

 

Como foi para você ter participado dessa experiência?

Essa experiência com a Iniciativa BNDES me trouxe muitos aprendizados, me permitiu participar da construção de uma política pública e de trabalhar em regime de colaboração. Pela primeira vez, eu vi sair do papel a estratégia de regime de colaboração, prevista pela Constituição Federal e pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. O auxílio do CIEB foi fantástico, pois realmente o CIEB tem uma metodologia de construção coletiva, de escuta sensível, de respeito à realidade de cada contexto. Todo o suporte foi de construção coletiva, de proporcionar aprendizados; houve fundamentação teórica, embasamento de todas as ações e processos inovadores para a construção do projeto, para a contratação da consultoria de formação, para a escolha do recurso educacional digital, mais apropriado para superar os desafios educacionais. Houve todo um suporte para que pudéssemos fazer as melhores escolhas.

 

Você concebe a disseminação da experiência que vocês tiveram em outras redes?

Tudo depende do histórico da rede, de suas concepções, dos recursos humanos que possui, da maneira como compreende a necessidade de usar as tecnologias. Mas tem um aspecto fundamental, que aprendi com a Iniciativa BNDES Educação Conectada, que é a necessidade contínua da interlocução entre a dimensão pedagógica e administrativa da secretaria. Essa interlocução muda a cultura de uma rede de ensino, pois não basta somente adquirir os equipamentos tecnológicos, é preciso pensar nos desafios educacionais e nas ferramentas mais adequadas para atingir os objetivos de aprendizagem. Muitas vezes, essa interlocução não existe ou é frágil, o que dificulta a aquisição de materiais e equipamentos adequados à proposta pedagógica e ao currículo local das redes.

 

Investir em tecnologia se tornou uma prioridade para as redes públicas?

Sim, os estudantes que estão chegando hoje vivem em uma era digital. Como você pode imaginar ir para a escola e não usar nenhum tipo de tecnologia? Hoje, não basta somente a tecnologia do quadro de giz. É preciso criar inúmeras experiências com os mais variados recursos e metodologias que valorizem o protagonismo do estudante. Mas a escola precisa usar a tecnologia ao seu favor, para tornar a aprendizagem mais atrativa, para possibilitar as construções coletivas, sendo o professor um mediador do processo de construção do conhecimento. Não temos mais como fugir de tudo isso, afinal que tipo de cidadão queremos formar para o futuro? Queremos cidadãos autônomos, protagonistas, capazes de resolver os problemas da vida cotidiana e construtores de sua própria história. Por isso, tudo depende das concepções e da visão dos gestores educacionais.

 

Publicado em: transformadores